Quatro anos após assassinatos de Bruno e Dom, rede criminosa mantém Vale do Javari sob ameaça no AM

  • 30/08/2026
(Foto: Reprodução)
4 anos após Bruno e Dom, rede criminosa mantém Vale do Javari sob ameaça no AM Quatro anos após os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o Vale do Javari, no Amazonas, continua no centro de disputas envolvendo narcotráfico, pesca ilegal e invasões de áreas protegidas, que desafiam a fiscalização e ameaçam povos indígenas da região. Localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, a terra indígena com a maior concentração de povos isolados do planeta segue como alvo de atividades ilícitas ligadas à exploração de recursos naturais, tráfico internacional e lavagem de dinheiro. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp 🔍Bruno e Dom desapareceram quando faziam uma expedição na Amazônia, na terra indígena do Vale do Javari, que engloba os municípios de Guajará e Atalaia do Norte. Os corpos foram achados em 15 de junho de 2022, dez dias após o último contato. O caso expôs a violência e as ameaças enfrentadas por quem atua na luta para proteger o território. Um estudo internacional publicado em julho na revista científica Nature Sustainability, com dados de 2008 a 2024, ajuda a dimensionar esse cenário. Assinado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), por cientistas e lideranças indígenas da região, o trabalho descreve como diferentes economias ilegais estão conectadas. (veja no infográfico abaixo) O indigenista Orlando Possuelo, que trabalha na mesma frente que Bruno atuou, destaca que o cenário é de permanente intimidação e violência contra os povos originários. Uma fonte ouvida pelo g1 e que viveu em Atalaia do Norte também relatou a pressão sofrida por etnias para que deixem seus territórios. (leia mais ⬇️) 📍O Vale do Javari abriga povos de contato recente, como Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina, além dos Korubo e Tsohom-Djapá. A região também tem pelo menos 14 grupos em isolamento voluntário. A Funai classifica as atividades ilícitas na fronteira como "preocupante" e defende uma fiscalização integrada. O Ibama diz que faz operações na região, uma delas neste ano com apoio do Exército, e diz que recentemente nomeou mais de 70 contratados temporários para atuação no entorno da Terra Indígena Vale do Javari. O governo do Estado diz que investe em ações de inteligência e o patrulhamento fluvial nos municípios da calha do Vale e conta com o apoio da Polícia Federal. (saiba mais ⬇️) Vastidão de mata e água facilita escoamento de produtos originários do crime pelo Rio Amazonas e afluentes. Aventura Produções Economia ilegal Ao g1, a pesquisadora Lívia Laureto explicou que os crimes ambientais integram uma economia ilegal que beneficia o narcotráfico por meio do escoamento de produtos do crime pelas rotas fluviais entre o Brasil e países vizinhos ao norte. Segundo ela, essas redes financiam embarcações, combustível, armas, equipamentos de comunicação e a logística usada para manter atividades como pesca e caça ilegais, garimpo e extração de madeira dentro da terra indígena. "Muitas vezes, quem executa essas atividades na ponta não é quem está financiando. Por isso, o combate precisa ir além do pescador, do garimpeiro ou do madeireiro. É preciso chegar até os financiadores, compradores e estruturas comerciais que dão aparência de legalidade a produtos ilícitos", relata a pesquisadora. A resposta para conter a invasão dos rios tem partido, muitas vezes, dos próprios povos originários. Sem poder de polícia, a Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) atua na linha de frente do monitoramento territorial na tentativa de suprir o vácuo da fiscalização, considerada pela população local insuficiente. 🏹🚨 Univaja é a principal entidade representativa dos povos indígenas do Vale do Javari. É uma organização indígena independente, sem vínculo com o poder público. Um dos responsáveis pela coordenação da EVU é o indigenista Orlando Possuelo, que trabalhou na estruturação da iniciativa ao lado de Bruno Pereira a partir de 2020 e segue na linha de frente no Vale do Javari. Ele explica que a falta de respaldo e reconhecimento oficial do Estado à Unijava aumenta a vulnerabilidade dos vigilantes indígenas em relação aos agentes públicos. "Por eles estarem fazendo monitoramento por conta própria, acaba sendo um alvo mais fácil. É diferente de você atacar um funcionário do Estado, que tem todo um aparato legal e também estrutura organizacional que tá ali fazendo o backup deles, a segurança de alguma forma." explicou o indigenista Ao detalhar agressões recentes, Possuelo cita um episódio emblemático ocorrido no primeiro semestre deste ano, quando um indígena em trânsito dentro da reserva foi capturado e submetido a tortura por invasores. "Foi em março ou abril. Um indígena estava retornando para casa dentro do território e parou para pescar, acampou. Ele saiu numa canoa menor para se alimentar e se deparou com caçadores e pescadores ilegais dentro do território. Esses caras agrediram ele, amarraram, acorrentaram ele dentro da própria canoa e soltaram rio abaixo", relatou Orlando. 🛶 📱Patrulha indígena Povo Korubo navegando no Vale do Javari Divulgação A rotina de patrulhamento da EVU conta com seis equipes e cerca de 16 indígenas por embarcação, operando em rodízios de 30 dias com o apoio de comunicação via rádio e internet satelital. Eles não têm poder de polícia, nem porte de armas. Diante do histórico de ameaças acumuladas ao longo dos anos por quem atua na defesa da floresta, o coordenador reflete sobre a necessidade de romper com a naturalização da rotina de insegurança no Javari. Além do caso de Bruno e Dom, em 2019 um funcionário da Fundação Nacional do Índio (Funai) que trabalhava no Vale do Javari foi assassinado em Tabatinga. Ele dirigia uma motocicleta quando foi baleado com dois tiros na cabeça. Vale do Javari: 2ª maior terra indígena do país tem histórico de assassinato de agente da Funai e é palco de conflitos típicos da Amazônia Operação mira grupo do CV que monitorava embarcações da polícia para facilitar tráfico de drogas no AM Ao g1, Eliesio Marubo, procurador jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), afirmou que episódios de intimidação direta são monitorados no Médio Javari. A comunidade Irari II, do povo Kanamari, chegou a ser invadida por homens armados que falavam espanhol em 2023. Já os Korubo vivem sob alerta permanente por causa do histórico de ataques a tiros contra a Base de Vigilância do Rio Ituí, que foi alvo de pelo menos oito tiroteios em um único ano. O procurador da Univaja alerta para o risco de confrontos e de transmissão de doenças aos povos isolados. "O risco é real e crescente. O cerco de garimpeiros, caçadores e rotas de narcotráfico reduz o território de trânsito livre desses grupos e aumenta a chance de contato não controlado. A resposta do Estado com presença de saúde, barreiras sanitárias e vigilância não acompanha o ritmo do avanço criminoso." Infográfico: entenda onde fica e como funciona a rede criminosa no Vale do Javari Arte/g1 Eliesio também apontou uma contradição na estrutura de segurança do território: a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) não tem poder de polícia nem porte de armas. "Colocar civis e servidores da Funai desarmados na linha de frente de um conflito com narcotraficantes armados é, por si só, uma falha estrutural do modelo de proteção do Estado. A Funai não tem poder de polícia nem treinamento para enfrentar narcotraficantes. A proteção depende da Polícia Federal e das Forças Armadas, que atuam de forma pontual, e não permanente." Operação da PF destrói 21 dragas usadas para garimpo ilegal no Vale do Javari Pressão sobre povos de recente contato A pressão sobre o Vale do Javari também tem atingido povos de contato recente. Segundo uma fonte que morou em Atalaia do Norte e acompanhou de perto a situação na região, grupos vulneráveis, como os Korubo, estariam sendo manipulados para deixar as terras demarcadas. Por medo de retaliações, a fonte pediu ao g1 para não ser identificada. "Estão usando a vulnerabilidade dos Korubo para empurrá-los para fora do seu território tradicional. É uma tática para desidratar a presença de indígenas de recente contato e, com isso, minar os próprios argumentos socioambientais que justificam a demarcação da área", afirmou. Facções transformam crimes ambientais em nova fronteira do poder no Amazonas Ao menos três municípios do AM com terras indígenas estão sob alta vulnerabilidade ao crime organizado, diz estudo 👣Ocorrências de invasões registradas pela Univaja: 456 ocorrências ou vestígios encontrados em levantamento no período entre 2021 a 2024. Apesar do relato e dos dados da Unijava, a Funai alega que 'até o momento, não há confirmação técnica de ocorrência que indique situação de risco ou deslocamento atípico do grupo Korubo'. Por isso, o órgão avalia que não há justificativa para alteração dos protocolos de proteção atualmente adotados. Draga do garimpo ilegal no Vale do Javari, no Amazonas CMA Grilagem usa Cadastro Ambiental Rural O estudo publicado na Nature aponta o uso fraudulento do Cadastro Ambiental Rural (CAR) como um dos principais vetores da grilagem de terras nas bordas do território demarcado no Vale do Javari. 🦗Grilagem é a apropriação ilegal de terras, geralmente públicas. Documentos e registros fraudulentos podem ser usados para tentar dar aparência legal à ocupação. Criado como instrumento de registro e regularização ambiental de propriedades, o CAR é autodeclaratório. Segundo os pesquisadores, criminosos passaram a usá-lo como um "falso título de propriedade" para tentar dar aparência de legalidade à ocupação de terras públicas. Entre 2017 e 2022, segundo levantamento dos pesquisadores, 64% de todo o desmatamento registrado no raio de 200 quilômetros do Vale do Javari ocorreu em áreas que tinham registros de CAR. Ao todo, foram mais de 154 mil hectares de vegetação nativa derrubada. A existência de um CAR, por si só, não significa que o cadastro seja fraudulento. Vista aérea de área queimada na Amazônia, perto de Apuí, no Amazonas, no dia 11 de agosto. Ueslei Marcelino/Reuters O entorno também concentra 4,8 milhões de hectares de Florestas Públicas Não Destinadas (FPNDs). São áreas públicas que ainda não têm uma categoria fundiária definida e, por isso, ficam mais vulneráveis a invasões, queimadas e grilagem. "Precisamos de ações rápidas de cancelamento desses cadastros fraudulentos e de uma integração automática do sistema com as bases da Funai e de florestas públicas, bloqueando cadastros sobrepostos imediatamente", cobrou Lívia. Diferentemente das Unidades de Conservação (UCs), as terras indígenas não têm zonas de amortecimento reconhecidas por lei. Essas áreas de transição ajudam a limitar a exploração econômica e a reduzir os impactos de queimadas e da grilagem nas bordas de áreas protegidas. Além das barreiras legais, a fiscalização enfrenta dificuldades práticas. Uma agente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que não quis se identificar, afirmou que o tamanho do território e o isolamento geográfico dificultam as operações. "A logística é um desafio enorme porque o território é muito grande, exige tempo, planejamento e alto recurso. São áreas isoladas que pedem mais de um modal para chegar, o que acaba tirando o efeito surpresa. Além disso, falta gente com conhecimento da região para apoiar na navegação dos rios e ramais, mas recrutar pessoal local é difícil pelo vínculo que muitos têm com as próprias atividades ilícitas", explicou a fiscal. O que diz o poder público Ao g1, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou que realizou, em 2026, uma operação conjunta com a Funai e o Exército Brasileiro nas margens dos rios Javari e Itaquai. A ação teve como foco o combate à pesca ilegal e a outros crimes relacionados. A operação resultou em 19 autos de infração aplicados, 800 quilos de pescado ilegal apreendido, apreensão de embarcações, espingardas e motosserras. O Ibama também destacou que reabriu em 2025 a Unidade Técnica em Tabatinga para manter uma presença regular na região e combater atividades como mineração e pesca ilegais. Sobre os riscos operacionais causados pelo avanço de facções criminosas e do narcotráfico, o órgão informou que investe em estrutura logística e na capacitação dos agentes, por meio do Curso de Técnicas Operacionais (CTOP) e do Curso de Operações de Fiscalização Ambiental (COFAM). "No âmbito do fortalecimento das ações na região, recentemente foram nomeados mais de 70 contratados temporários para atuação no entorno da Terra Indígena Vale do Javari. A ampliação do efetivo representa importante reforço à capacidade institucional de presença do Estado na região" destaca o Ibama. A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) informou que reforçou o policiamento ostensivo, as ações de inteligência e o patrulhamento fluvial nos municípios da calha do Vale do Javari. Segundo a pasta, entre maio e agosto de 2026, a região recebeu mais 38 policiais militares e civis por meio do Programa Brasil Contra o Crime Organizado e da Operação Segurança Presente. A SSP-AM também informou que a Polícia Militar do Amazonas atua no apoio direto às fiscalizações do Ibama e mantém efetivo em bases de proteção da Funai. Além disso, a secretaria afirmou que trabalha em conjunto com a Polícia Federal por meio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco). Entre os investimentos citados pela pasta estão o funcionamento da Base Fluvial Arpão I, ancorada em Jutaí, e o envio de uma lancha blindada para reforçar as operações em Tabatinga. Em nota, a Funai informou que a Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari atua permanentemente na proteção dos povos isolados e de recente contato. Já o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) informou que atua no Alto Solimões e no Vale do Javari por meio de ações integradas de segurança pública, proteção territorial e combate a organizações criminosas e economias ilícitas. Segundo a pasta, a Força Nacional de Segurança Pública presta apoio direto à Funai na proteção de povos indígenas e servidores na Terra Indígena Vale do Javari, além de auxiliar a Polícia Federal no policiamento de fronteira em Tabatinga. Ambos os empregos ostensivos contam com vigência respaldada por portarias ministeriais editadas em 2026. A Polícia Federal foi procurada e não havia respondido sobre as ações até a publicação desta reportagem.

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/08/30/quatro-anos-apos-assassinatos-de-bruno-e-dom-rede-criminosa-mantem-vale-do-javari-sob-ameaca-no-am.ghtml


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